As características da revista

Hoje pela manhã um colega de trabalho me questionou se há diferença na essência do jornalismo nos diferentes veículos de comunicação. Os fundamentos da área, independentemente do tipo de veículo, são os mesmos: independência, veracidade, objetividade, honestidade, imparcialidade, exatidão, credibilidade. A diferença está no formato do meio de comunicação, que, por sua vez, têm públicos diferentes e precisa de tratamento específico.

Fiquei com vontade de escrever um post sobre o assunto. Foi ai que lembrei que precisava levar para a faculdade hoje um resumo sobre o que é jornalismo de revista. Aproveitando a breve pesquisa, resolvi compartilhar com vocês o que encontrei, visto que este formato, como diz a minha professora Bianca de Freitas, é o “suprassumo” (essa nova reforma ortográfica ainda me é muito estranha) do jornalismo.

De acordo com Marília Scalzo, em seu livro “Jornalismo de Revista”, este formato do jornalismo impresso tem três características definidoras. A primeira é a especialização; cada uma possui um tipo público bem definido e deve ser feita visando falar com essas pessoas, trazer projeto editorial e gráfico condizente com suas expectativas e repertório.

A segunda é o próprio formato físico. Maior apuro gráfico, papel e impressão melhores, portanto maior cuidado com a imagem. O design de revistas é algo mais refinado que o de outros produtos comunicacionais impressos. A terceira é a periodicidade. As revistas jornalísticas semanais, por exemplo, se diferenciam dos jornais impressos por aprofundar mais o assunto e por dar mais espaço para o estilo individual do escritor.

Neste formato, a pauta e o texto são fatores predominantes para um bom resultado. Marília, em sua obra, diz que o segredo está na apuração e quem tem um número maior de informações qualificadas na mão tem muito mais chances de escrever uma boa reportagem, um bom artigo ou uma boa notícia do aquele que simplesmente escreve bonito. “Não adianta querer ficar bordando um texto vazio de informação. Jornalismo não é literatura. Quando se tenta arrisca-se a cair na literatice”.

Além disso, um fato que merece destaque é a empatia com o leitor. Logo no inicio do livro, Marília explica o porquê: “Os leitores costumam manter uma relação quase passional com suas revistas favoritas. Não é à toa que gostem de andar com elas debaixo do braço, como se fossem uma espécie de emblema ou sina de identificação. Muito do fascínio deste tipo de publicação vem justamente da capacidade que ele tem de construir fortes laços de empatia com seu público [...]”.

Minha professora Bianca questionou ontem e é verdade: quem tem coragem de jogar uma revista fora, assim como faz com um jornal? Muitas pessoas chegam a colecionar o periódico. A primeira revista foi fundada em 1663 na Alemanha e se chamava Erbauliche Monaths Unterredungen (no bom português, algo como “Edificantes Discussões Mensais”). Tratava-se de um volume com a forma e formato de livro, e só foi caracterizada como tal, por conta dos artigos de teologia, possuir público específico e periodicidade regular. Dois anos depois, surge na França a primeira revista literária, a Journal des Savants.

O termo magazine surgiu somente em 1704, na Inglaterra, com um volume que se parece com livro, mas tem objetivo, público específico, com assuntos aprofundados. O magazine, de fato, é mais aprofundado que os jornais e menos do que os livros. Os títulos da época transitam por várias estéticas. Só em 1731 surge a primeira revista parecida com nosso padrão moderno. Ela nasceu na Inglaterra e se chamava ‘The Gentleman’s Magazine’ (algo como “A revista dos cavalheiros” para nós).

O formato cresceu mesmo no século XIX com o crescimento dos cidadãos alfabetizados e virou moda. Até 2000, eram vendidas no Brasil 600 milhões de exemplares de revistas/ano. Nos EUA, eram 6 bilhões. O maior sucesso editorial da atualidade é a Cosmopolitan, presente em 25 países. Sua fórmula é falar para a mulher jovem, interessada em carreira, beleza, relacionamentos amorosos, sexo.

As revistas no Brasil

Quais foram as principais revistas brasileiras? Marília Scalzo nos ajuda a fazer memória:

  • 1812: As variedades (BA) – sobre literatura, em forma de livro;
  • 1813: O Patriota (RJ);
  • 1817: O Propagador das Ciências (RJ) – primeira segmentada;
  • 1849: A Marmota da Corte (RJ) – introduziu humor e textos curtos;
  • 1898: Rio Nu (RJ) – contos picantes, fotos eróticas e política; 1900: Revista da Semana – com reconstituição de crimes através de fotos;
  • 1905: Tico-Tico – primeira em quadrinhos;
  • 1928: O Cruzeiro – dos Diários Associados, trazia grandes reportagens fotográficas, ilustrações, chegou a vender 700 mil exemplares por semana nos anos 50, quebrou em 1978;
  • 1929: Revista do Globo (RS), publicada pela Livraria e Editora Globo de Porto Alegre, continha ilustrações, abria espaço para poetas;
  • 1950: Pato Donald – primeira da Editora Abril; 1952: Manchete – ” Aconteceu virou Manchete” , valorizava fotos, ilustrações, fait divers, fechou em 2000;
  • 1966: Realidade – da Abril, deixou saudades nos jornalistas, era adepta ao jornalismo investigativo, grande reportagem evidenciando as mazelas sociais em plena ditadura, durou até 1976;
  • 1968: Veja – inspirada na Time, notícias da semana divididas em seções, texto objetivo, uma revista que hoje vende mais de 1 milhão de exemplares por semana, é a quarta maior revista informativa do mundo.

Na década de 60, surgiram também as revistas de Maurício de Souza, Manequim, Quatro Rodas, Claudia (com fotonovelas, decoração, beleza, problemas femininos), Ele e Ela. Na década de 70, surgiram IstoÉ, Visão, Exame (a primeira de negócios), Playboy, Nova, entre outras.

Fontes de pesquisa:

:: Alexander Goulart: Uma lupa sobre o jornalismo de revista
:: Paulo Sérgio Pires: Uma boa folheada no Jornalismo de Revista

E, como não poderia deixar de faltar: SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. São Paulo: Contexto, 2004.

Veja também:

:: O público é o veículo que faz

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  1. Frederico on quarta-feira 24, 2010

    O que também podemos observar claramente é a fragmentação do conteúdo. Cada vez mais vemos revistas falando especificamente sobre uma determinada editoria ou determinado público (Jovem, adulto, masculino e etc). Quando não de uma fração desta. (Ex.: Editoria: Música / Fração da editoria: Rock). Acho positiva essa fragmentação de conteúdo.
    Ótimo post! Beijos!