Ainda sobre a imparcialidade no jornalismo 0
O meu colega twitteiro* @heliopaz fez um comentário tão fundamentado sobre a imparcialidade no jornalismo que achei um pecado não lhe dar o devido destaque no blog. Ele é Mestre em Ciências da Comunicação, pela Unisinos, e, assim como eu, acredita que ser imparcial é impossível.
Esta é a primeira colaboração no “Diário de um repórter” e espero que abra às portas para muitas outras. Confira abaixo a sua opinião:
“O chamado senso comum é a opinião de leigos e de não-especialistas. Em geral, ou é extremamente parcial por não perceber mais de um lado da mesma questão, ou por nitidamente puxar a sardinha para o assado: a) ou do lado que se conhece melhor; b) ou em deliberado detrimento do lado que se desconhece ou ao qual não interessa promover.
O professor Adriano Duarte Rodrigues (Universidade Nova de Lisboa), com base no conceito de campos sociais de Pierre Bourdieu (o filósofo que mais se debruçou no estudo das relações de poder), fala em Campo dos Mídias.
O que caracteriza um campo social? Resumidamente: 1) hierarquia complexa (divisões formais ou informais das instâncias desse campo do conhecimento); 2) natureza vicária da função que os une (seus integrantes seriam os únicos capazes de realizar determinada tarefa com precisão e responsabilidade suficientes – entre aspas, seriam insubstituíveis); 3) Medidas legais protecionistas, que garantem poder, exclusividade e autoridade ao campo social; 4) Simbologia própria (rituais, jargão, protocólos, etc.).
Rodrigues considera o Campo dos Mídias como o único campo social capaz de entrar em todos os demais campos sociais (religioso, jurídico, médico, esportivo, acadêmico, empresarial, científico, político, militar, financista – esses são os principais).
Outra característica exclusiva do campo dos mídias é: ele traduz o discurso dos demais campos sociais para que pessoas não-pertencentes ao campo traduzido (por exemplo, uma determinada pauta relacionada ao campo médico – a cura de uma doença viral; primeiros-socorros; drama de doentes; problemas no atendimento em hospitais, etc.) compreendam melhor o que se passa.
Porém, o campo dos mídia também transforma o discurso que vem de fora para dentro do campo cujo discurso fora traduzido para a sociedade como um todo. Isso acarreta em transformações discursivas e semânticas até mesmo em alguns dos símbolos que caracterizam algum dos outros campos sociais.
A professora Beatriz Marocco, da Unisinos, utiliza muito o filósofo Michel Foucault para trabalhar os mecanismos de vigilância, de punição e de protecionismo com base na mecânica das instâncias de poder observadas anteriormente por Bourdieu diretamente relacionadas ao Jornalismo.
Na mesma linha, tem um livrinho datado em termos de internet, mas extremamente atual em termos teóricos e discursivos, chamado “Jornalismo: a saga dos cães perdidos”, do professor Ciro Marcondes Filho, da USP. Nessa obra, Marcondes Filho diz que o jornalismo impresso tal qual surgiu em meio à Revolução Industrial, era contestador e investigativo. Porém, à medida que foi se industrializando e recebendo o financiamento de patrocinadores conservadores voltados a manter o status quo sempre a favor de seus interesses econômicos. Então, variedades, curiosidades, aberrações, amenidades e dicas normativas voltadas à manutenção desse status quo foram, aos poucos, tomando conta das páginas.
Isso torna a imparcialidade absolutamente impossível. Não necessariamente por má intenção ou por ignorância do repórter mas, sim, porque esse mesmo repórter está totalmente integrado aos valores conservadores do sistema que permite que ele trabalhe dessa maneira.
Nas grandes redações (sejam elas de jornal, revista, rádio, TV, portais e outras mídias), os editores, notadamente conservadores e diretamente envolvidos na escolha das pautas, na definição das prioridades da agenda, na satisfação máxima do interesse dos financiadores dessa indústria e em meramente noticias o mais do mesmo, evita causar estranhamento e fazer valer o juramento do diploma, isto é, de justificar a sua função social.
Jornalistas contestadores e investigadores não tem vez enquanto não se enquadrarem ao sistema industrial. Por isso, quem mais se sobressai são aqueles que fomentam preconceitos e agem como se fossem sumidades em Direito, Medicina, Engenharia, Esportes, Política, Economia e assim por diante.
Outra grande falha na questão da “imparcialidade” jornalística decorrente de tudo o que eu escrevi acima: jornalistas conservadores + patrocinadores conservadores + público conservador = especialistas conservadores.
Por exemplo: nos jornais, via de regra, fala-se apenas sobre o complicado economês que, ao contrário do que latifundiários, banqueiros, industriais, herdeiros rentistas e seus braços políticos e midiáticos desejam afirmar para a sociedade leiga, não interfere nem para melhor e nem para pior na vida de dezenas de milhões de brasileiros que não sofrem os efeitos da crise ou da prosperidade de um desses campos nem direta e tampouco indiretamente. Por outro lado, a economia popular solidária, que não envolve trocas com bancos nem preocupações com taxas de juros, financiamentos nem assinatura de contratos mas que é capaz de evitar a fome e a falta de moradia na periferia, na favela e entre pequenos agricultores, é solenemente ignorada.
Para vocês verem, não citei política partidária, patronal, clubística nem sindical em momento algum. Não entrei sequer no mérito das leis. Tampouco citei nomes de empresas ou de protagonistas desses campos sociais. A função do jornalismo deveria ser dar os nomes aos bois e fornecer dossiês e históricos da atuação de pessoas, governos e empresas, bem como informar quem faz parte de sua rede social.
Enfim, em função da parcialidade enrustida, o olhar hegemônico não contempla a possibilidade de colocar-se no lugar do outro. Isso vale para quaisquer relações humanas, comunitárias, profissionais, religiosas, familiares e assim por diante”.
Hélio Paz
:: Leia também “Imparcialidade no jornalismo: realidade ou utopia?”
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