Foi-se o tempo em que eu acreditava em imparcialidade no jornalismo. Já escrevi sobre isso aqui no blog e rendeu boas discussões. Hoje, lendo sobre ideologia e poder social, resolvi retomar o assunto em uma perspectiva diferente. Afinal, será que a função do jornalismo transformou-se de ponte de conhecimento para uma espécie de “venda” de ideologia para os leitores seguirem?
Refletindo sobre o tema, cheguei a conclusão de que não adianta fantasiar. Eu já fui bem sonhadora com a profissão, mas a vivência com os fatos foi mostrando que nem tudo é o que parece. Toda empresa de comunicação vive de acordo com uma ideologia, algo que acredita, confia e divulga (e ainda tem todo o aspecto capitalista da coisa, mas isso é outra conversa). Se é contra o governo, suas matérias serão tendenciosas em denunciar. Se é chapa branca, o periódico busca enfatizar os aspectos positivos. E isso não se aplica somente na política, mas em todas as editorias.
O poder social é a capacidade de um grupo humano de influenciar uma ou mais pessoas. Ou seja, capacidade de uma coletividade realizar influência social. Essa influência é baseada em seis pontos distintos, que personificam as formas de relacionamento entre aquele que detém o poder e aquele que é influenciado por este.
No jornalismo, os que recebem destaque são o poder de especialista – influência baseada em habilidades específicas ou em conhecimentos – enfatizado pelas fontes; e o poder de informação – baseado em evidências e argumentos de um objeto social.
Os processos de influência e persuasão já são estudados desde a Grécia Antiga, com a retórica de Aristóteles como referência máxima, mas continuam ainda hoje a fascinar os investigadores na área das ciências sociais particularmente na área da psicologia social.
Um dos psicólogos sociais que mais se aprofundam neste tema é Robert Cialdini. Este autor é, sobretudo, reconhecido pela sua definição dos seis princípios base que estão por detrás de qualquer tentativa de persuasão. De acordo com Cialdini, os seis princípios da persuasão são:
- Reciprocidade – este princípio define que as pessoas estão mais dispostas a anuir com algum pedido quando algo lhes foi “dado” em primeiro lugar;
- Consistência – as pessoas sentem-se mais dispostas a atuar de uma certa forma se encararem isso como sendo consistente com o seu comportamento prévio;
- Autoridade – de acordo com este princípio, a autoridade ou perícia percebida do comunicador é um fator importante para que as pessoas se sintam dispostas a concordar ou fazer algo;
- Validação Social – quanto mais “popular” for percebido ser um comportamento, maior será a tendência para que alguém se comporte dessa forma;
- Escassez – a atratividade de um dado objeto/serviço/situação é inversamente proporcional à sua disponibilidade;
- Atração – as pessoas estão mais dispostas a ajudar ou concordar com aqueles de quem gostam, têm uma relação de amizade, por quem se sentem atraídos ou consideram ser similares a si.
Todos esses aspectos são levados em consideração pelos donos das empresas de comunicação. O que devemos fazer, como leitores, é usar a lei do “troque de canal”, “mude a estação de rádio”, “não leia mais determinado jornal” ou “veja outros sites de notícias” caso se sinta ofendido com determinadas publicações.
E os jornalistas. Bom! Os jornalistas precisam ser éticos em primeiro lugar. Acreditar que vamos encontrar a empresa jornalística dos sonhos é utopia. Então, o que devemos fazer é seguir nossos princípios e buscar trabalhar numa organização que busque ao máximo respeitar os leitores.
Leia também:
:: Ainda sobre a imparcialidade no jornalismo
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Sem dúvida há ideologia onde há pensamento humano.
Excelente post, esclarecedor.
Parabéns, senhorita!
Abraços,
Henrique
Olá, sou recém-formado em Jornalismo e mais do que ninguém senti a pontada da decepção, com a queda do diploma (no ano em que me formei) e de toda a fantasia que revestia a profissão do Jornalismo… É fato. Veículos de comunicação são controlados por pessoas e pessoas são imperfeitas. Acho que a ética pessoal é a única que transporta os jornalistas aos veículos que mais lhe completam, no melhor estilo: “o que eles pensam é o que eu penso”. Isso é natural. O que falta, na minha opinião, é o povo utilizar sua força de massa para discutir o que é certo e o que é especulação, sensacionalismo…
Abraço,
PS: bem interessante ^^
Ariane,
Não sei se já leste um livrinho pequeno e antigo, porém bastante consistente, do prof. Ciro Marcondes Fº da USP, chamado “Jornalismo: a saga dos cães perdidos”.
Utilizei-o na minha dissertação de mestrado e ele disseca a história do jornalismo desde a Europa no final da Idade Média para demonstrar que o fator econômico influencia diretamente em como se diz, o que se diz e o que não se diz a respeito de uma determinada pauta.
Ele demonstra que o modelo industrial de financiamento de qualquer tipo de corporação midiática moderna (jornais, revistas, rádios e TVs de todos os tipos – inclusive o modelo dos portais de conteúdo na internet financiado por banners apenas replica a mesma lógica) depende muito mais do interesse do patrocinador e dos donos dos veículos de comunicação do que da vontade de qualquer repórter ético, competente, investigador e plural.
Vou te dar alguns exemplos: aqui no RS e em SC, a RBS possui um poder de penetração proporcionalmente bem maior ao da Globo no RJ e em SP. O RS é um estado em que os herdeiros de uma oligarquia agrária reacionária estão sempre mancomunados com os donos da mídia. O mesmo vale para os industriais do setor metal-mecânico da Serra, de origem basicamente italiana. Além deles, há a construção civil de Porto Alegre (que domina os anúncios dos classificados), os bancos e as montadoras de automóveis.
Nada que for contra os interesses desses grupos é veiculado. Quando o é, ocorre simplesmente como uma forma de pressão da corporação midiática muito provavelmente por estar ou recebendo mais dinheiro dos concorrentes, ou justamente para renovar contratos de patrocínio por cotas mais elevadas. Isso feito, voltará a omitir que a empresa foi autuada por questões fiscais ou ambientais, voltará também a publicar a Carta do Leitor reclamando de um mau atendimento no serviço e assim por diante.
Hoje, o RS vive um triste momento de corrupção muitíssimo maior do que o que foi verificado com Arruda em Brasília. Todavia, somente os blogs alternativos (isto é, aqueles que não recebem financiamento dos grupos de interesse acima citados) é que contam os pormenores das reuniões das CPIs na Assembléia Legislativa do Estado e que investigam e denunciam o passado da base de sustentação do desgoverno Yeda no RS e do desgoverno Fogaça na capital.
A FIERGS (industriais), a FARSUL (latifundiários), o SINDUSCOM (indústria da construção civil) e a GM (entre outras; mas esta é a única montadora instalada no RS) são extremamente conservadores e refletem a posição da maioria étnica predominantemente descendente de alemães e italianos. Com isso, raramente se fala em trabalho escravo no campo, na necessidade de se respeitar o pedestre e de construir ciclovias e implantar uma linha de metrô que passe pelas regiões mais pobres das cidades-dormitório da Grande POA e costumam dar como positivas as decisões na Câmara Municipal de POA sobre a permissividade de construir espigões por toda a cidade, destruindo décadas de discussões do PDDUA (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental). Da mesma forma, no campo, os sem-terra são vistos como guerrilheiros em um estado onde quem tem terra não planta e não cria nada – quem trabalha no campo e ganha pouco é o pequeno agricultor.
Isso posto, Yeda é blindada pela RBS em dois escândalos: o do desvio de 44 milhões do DETRAN-RS e o da chamada Operação Solidária, que estima o rombo em mais de 330 milhões.
Enquanto isso, o professor da PUCRS (que é a graduação em Jornalismo mais conceituada do sul do país, porém possui também uma parceria forte de muitos anos com a RBS – o que considero uma permissividade) e um dos membros do comitê organizador da I CONFECOM, vice-presidente da FENAJ, membro do FNDC e professor da PUCRS Celso Schröder, esqueceu todo o seu passado de sindicalista e não se atualizou. Ele é uma importante voz que, infelizmente, posiciona-se contra a internet e contra os blogs porque crê que somente o jornalismo corporativo é capaz de proporcionar produtos de qualidade com ética, apuração, responsabilidade, fontes confiáveis e disponibilização de referências.
Ora, nesse ponto, se vê que a mídia corporativa é tão partidarizada, ideologizada e incompetente quanto blogueiros independentes.
Enfim… Me estendi demais. Muito mais do que a questão do diploma (que acho um atraso, pois não é nem a garantia de qualidade e nem uma forma de brecar a falta de estabilidade das corporações – a publicidade paga mais do que o jornalismo, o mercado é mais ou menos do mesmo tamanho e a exploração é igual), creio que o maior problema é a diferença de alcance do megafone gigantesco para quem possui concessões de rádio e TV ilegais e irradia a sua posição para milhões ou dezenas de milhões de pessoas x um alcance hiper-restrito de blogs que possuem centenas ou alguns milhares de acessos por dia.
Nesse aspecto, sou mais resistir e debater a configuração do Marco Civil da Internet no Brasil e defender todos os artigos que tratam da liberdade de imprensa (não da liberdade de empresa ou da liberdade corporativista sindical) e da liberdade de expressão garantidos pela Constituição Federal de 1988.
A Argentina evoluiu na questão da Ley de los Medios e o Canadá acerca do que é jornalismo, do que é profissionalismo e para que serve o diploma. E criar um Conselho que fiscalize a realização de um jornalismo ético, cidadão, investigativo, plural e que faça com que os veículos tornem explícita a sua posição política, econômica, partidária classista e ideológica como ocorre na França não é – de forma alguma – censurar ou vedar a liberdade de expressão mas, sim, responsabilizar a quem mente, a quem omite, garantir um espaço idêntico de direito de resposta e fazer respeitar as concessões públicas das ondas de radiodifusão no território nacional.
É sempre um prazer interagir contigo! ;)
Besos,
Hélio
Todos somos tendenciosos, mas o foco é sempre mostrar a verdade, independente do viés.
Crítica muito interessante, Ari ^^
I liked it. So much useful material. I read with great interest.
Foi essa Lei que adotei aqui em casa, com minha família. Excluímos o Canal G e evitamos ao máximo os canais bajuladores do canal G
É muito esclarecedor,eu estou pensando em cursar jornalismo este ano2010 .E o jornalista,como qualquer outro profissional têm que seguir normas da empresa na qual trabalha que muitas vezes não concorda.Obrigado pelo post e estarei em breve pondo um link do meu blog para cá http://meupensar.wordpress.com
Excelente post! Vou recomendar em meu site assim que sair do trabalho. Só não concordei com algumas opinões nos comentários, mas também falarei depois sobre, já que o trabalho me espera.
Passo sempre aqui, apesar de não comentar muito. E seu site é muito bom! Parabéns! (Nessas horas que agradeço o twitter. Sem ele nunca conheceria você e seus posts).
Muito obrigada, Flaviane. Fico feliz em saber, conheci seu site ontem e o achei muito interessante. Sem contar que o design é muito bonito também.
muito bem