Imparcialidade no jornalismo: realidade ou utopia? 4
Imparcialidade é o ato de isentar a opinião própria diante de um fato. O jornalismo brasileiro, assim como qualquer outro, não é imparcial porque é feito por seres humanos. O homem, sendo dotado de signos e significados, é incapaz de falar sobre qualquer assunto sem inserir o seu ponto de vista.
O universo dos signos abrange as inumeráveis “coisas representativas de outras coisas”: estímulos e saberes que nos chegam via percepção e que passamos a conhecer e, sobretudo, reconhecer e relacionar por meio da memória e dos raciocínios associativos.
Sem signos não há um saber consciente de coisa alguma. O pensador da semiótica, Charles Peirce, escreveu que o próprio homem é um signo, pois somente tem consciência de si mesmo, quando se reconhece como tal, pela simples experiência de ser e saber que é homem implicando este fato em discernir o “não ser” planta, pedra ou outro animal.
No caso do jornalismo, ao apurar um fato já estamos sendo imparciais. Escolhemos a fonte que acreditamos ser as melhores, os ângulos que pensamos ser os mais próprios, a pauta que imaginamos interessar o leitor. Quando vamos escrever, colocamos as informações de acordo com o que achamos mais importante e/ou interessante.
O famoso lead – resposta às seis perguntinhas mágicas: quem, quando, quê, por quê, onde e como – e a pirâmide invertida (colocar os conteúdos em ordem de maior importância) também representam um ponto de vista, logo, uma imparcialidade. O que é relevante para mim para começar a notícia pode ser totalmente fútil para você.
Sendo assim, a imparcialidade no jornalismo, acredito eu, não existe. Cabe aos profissionais da área aperfeiçoarem-se e buscá-la no dia-a-dia. É de suma importância que o repórter não carregue seus textos de ideologia e opinião, visto que essa não é sua função.
Mas também dizer que isso é ser imparcial é utopia. Ele deve, sim, tentar ao máximo falar a verdade e ver todos os lados de um mesmo fato. Afinal, como diria Clóvis Rossi: “O jornalismo é a arte de informar para transformar”.







Realmente precisei ler o texto e concordo com seu ponto de vista, no Twitter acabei discordando de você por achar que estava falando em geral de outro assunto. o texto ficou bem colocado até
Clóvis Rossi diz também que o jornalismo é a batalha pela conquista de mentes e corações. Levando em consideração as mentes e os corações brasileiros do século XXI, intimamente próximos das novas mídias, e a imparcialidade tão buscada na atividade do jornalismo, podemos refletir, Ariane, sobre algumas temáticas, que não sei se você já as abordou no seu blog.
Cada vez mais os jornais impressos perdem tiragem. Em contrapartida, os blogs independentes ganham mais leitores. Eles fazem o sensacional trabalho de informar opinando, por isso as pessoas buscam os blogs cientes da posição do editor.
Qual seria, portanto, a postura ideal dos jornais impressos? Neles prevalece de forma mais intensa a liberdade de empresa sobre a liberdade de imprensa. Seria, talvez, necessário um jornalismo mais parecido com o ‘de revista’: posições ideológicas e políticas claras, muita informação, ‘texto completo’?
Não é novidade para ninguém o que acontece na imprensa de São Paulo, por exemplo, com relação ao governo tucano. A partir daí, deixando cristalino que o jornalismo brasileiro NÃO é imparcial, cabe a nós, estudantes de jornalismo, decidir: é errado, coloca em xeque os princípios básicos da profissão; ou é uma nova tendência, que surge como forma de ’salvar’ o jornalismo e competir com a internet?
O que você acha?
Então, Vinicíus, este assunto é muito pertinente. Eu acredito que é preciso deixar bem claro uma coisa: jornalismo informativo é uma coisa, jornalismo opinativo é outra. Concordo com você que os blogs vêm crescendo e o foco deles é a informação com a pitada de opinião, MAS, creio que esse não seja um segmento que deve servir de guia pelos jornais impressos, por exemplo.
O jornalismo tem como raiz transmitir informações de modo a fazer o leitor refletir sobre tal e formar o seu próprio juízo de valor. Penso que não cabe a mim, como jornalista, dizer o que é certo/errado ou apontar tendências melhores/ piores.
Eu creio que, como escrevi neste post (http://www.arianefonseca.com/o-jornal-impresso-vai-morrer) as mudanças do jornal impresso precisam ser no seu formato e no seu conteúdo, mas quanto o aprofundamento das informações.
Hoje, as notícias dos periódicos impressos são parecidos com os da internet. Quem vai perder tempo lendo a mesma informação que já viu em outro veículo?
Não concordo com você que a revista traz posições ideológicas. Eu acho que a mesma, como gênero jornalistico informativo, também traz notícias sem o acréscimo do ponto de vista ‘escancarado’. A ressalva é que ela aprofunda o conteúdo.
Mas esse assunto ainda dá muitas discussões. O importante é isso, ver os pontos de vista.
Obrigada pela participação.
=)
Parabéns pela abordagem!
Ao assistir os programas jornalísticos da grande mídia, como os da Rede Globo, nos deparamos com a desconstrução, desinformação e não com a informação para que o leitor ou expectador possa formar seu próprio juízo de valor, construir seu próprio saber. Esta atitude da Globo, longe de ser um simples engano jornalístico, é proposital, dado seu viés político de classe dominante.
O repórter Lucas Mendes da BBC Brasil, ao questionar a primeira repórter brasileira (baiana) do Times, Fernanda Santos, sobre o que ela achava de Michael Bloomberg, ela respondeu com um chavão. “É segredo. Aprendi no Times que repórteres não são pagos para achar e sim para informar ao leitor o que está acontecendo, para que ele forme sua opinião.”
Vejamos o caso recente do golpe militar em Honduras. A Globo trata esta questão, desinformando o leitor de que o presidente deposto Manuel Zelaia queria “incluir nas cláusulas das eleições presidenciais de novembro deste ano uma consulta sobre a possibilidade de mudar a Constituição do país para poder se reeleger.” Esta versão de informação não é correta, a consulta ou referendo popular, trata da aceitação ou não da população de uma nova constituinte, esta sim, se for realizada, poderá decidir sobre a reeleição de futuros presidentes, uma vez que, a possibilidade de reeleição dificilmente beneficiaria o presidente em seu final de mandato.
A Globo se posicionou implicitamente a favor do golpe de estado, classificando o governo de facto (governo golpista) de governo interino. Vale destacar que o presidente deposto Manuel Zelaia é do Partido Liberal, mesmo partido conservado do presidente de facto Roberto Micheletti.