O Haiti, a dor e o papel do jornalista

Nesta semana, postei no Twitter que estava achando muito sensacionalista a cobertura da mídia mundial no terremoto do Haiti. Um amigo dos tempos em que trabalhava em jornal impresso me questionou: “Como fazer uma cobertura não sensacional Dona Ariane?” Pensei bem e respondi: “Respeitando a dor do ser humano, em primeiro lugar. Informar é uma coisa, explorar para ter ibope é outra”.

E quantas vezes os meios de comunicação não extraem até a última gota de sangue e lágrima de um fato para ter audiência e depois, como em um passe de mágica, simplesmente esquecem que ele existiu, não é? Os nomes Izabella Nardoni, João Hélio, Eloá Cristina, Suzane Richthofen (e tantos outros) te lembram alguma coisa?

Só porque o Haiti é um dos países mais pobres do mundo e a população não tem quase nenhum dos seus direitos humanos, um cara pode chegar lá e mostrar seus órgãos saindo do corpo, seus gritos de dor, seu rosto machucado…? As fotografias publicadas nos sites de notícias brasileiros e nos jornais impressos quase sempre me fizeram chorar. Eu não acreditava no que via.

Peguei birra da Lilian Teles, da Rede Globo, depois que ela mostrou aquela mulher debaixo dos escombros sendo socorrida pelo militar brasileiro. Além de tumultuar o salvamento, aquele rosto sofrido não saiu mais da minha cabeça.

Não há motivo de expor a dor alheia sem um objetivo comum. Como li no blog ‘Antonizado’: “Isso aparenta quase que um reality show mundial. O que difere é que ninguém se inscreveu para participar do programa, tampouco pediu para ser exposto ao mundo inteiro”. Acrescenta alguma coisa em sua vida ver sangue, dor, lágrimas alheias?

Faço minhas novamente as palavras do post “O Haiti sensacionalista”, do blog ‘Antonizado’: “Não sei se só acontece comigo, mas quando estou vendo na televisão todas aquelas imagens fortes, cenas de puro desespero e desumanização, eu me sinto culpado por não estar fazendo absolutamente nada. Eu acabo não vendo motivo nenhum em acompanhar o que está acontecendo, já que de nada vai adiantar eu estar informado e não poder colaborar. Vejo-me com um controle remoto na mão, mas duas algemas no punho”.

Já citei aqui no blog, mas vou usar essa frase mais uma vez porque ela mudou meu modo de ver as coisas: “O meu direito termina, onde começa o do outro”. Guarde isso senhor jornalista ou futuro profissional da comunicação!

PS: Não vou colocar nenhum vídeo para os casos que comentei, nem fotos porque não quero contribuir para disseminar a dor alheia.

Veja também:

:: Informação espetáculo x informação educação

:: Até onde vale a pena?

:: O voo AF 447 e a imprensa brasileira

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  1. Aline Ramos on quinta-feira 21, 2010

    “Vejo-me com um controle remoto na mão, mas duas algemas no punho” sintetiza tudo.

  2. Pedro Zambarda on quinta-feira 21, 2010

    É complicado, mas acho correto divulgar número de mortos e detalhes do incidentes.

    O sensacionalismo recide em ficar repetindo isso, incansavelmente.

    Beijos, Ari!

  3. rafael rodrigues on quinta-feira 21, 2010

    Primeiro queria dizer que adorei ser citado ..rs
    Mas infelizmente não compartilho muuuito com essa parada de sensacionalismo! Claro alguns veículos vem abusando das imagens e das “histórinhas”, masssss
    Não vejo outra maneira de ajudar esse povo (com o perdão da palavra e sem hipocrisia) fudido!
    Todo mundo sabe que existem crianças passando fome, mas só quando veem uma com o estômago encostando na coluna é que se sensibilizam e compram um pacote de biscoito passatempo…Quero estar enganado, mas não vejo ninguém procurando uma criança faminta ara ajudar, mas vejo muitas procurando alguém para alimenta-las…
    Como dizia o velho “deitado”: O que os olhos não veem o coração não sente!”
    E quero deixar bem claro que não sou frio, choro atoa, até vendo Free Willy!
    bjinho…ta lindo o blogo!

  4. arianef on quinta-feira 21, 2010

    Querido Rafael, que me deu inspiração para este post, eu não concordo com você amigo. Acho que não precisamos mostrar sangue e dor para comover as pessoas a fazerem o bem.

    A Neide Duarte, por exemplo, faz matérias excelentes, que mexem com o lado emocional do ser humano, mas ela não precisa torcer lágrimas das imagens e forçar o texto para isso.

    Aqueles repórteres da Folha ( não me lembro o nome agora) que passaram um tempo nas ruas para fazer uma matéria sobre os mendigos me fizeram chorar o texto todo. Mas, para isso, não violaram a integridades destas pessoas que também são sofridas.

    Acho que é preciso ouvir mais os haitianos, sem explorar a dor imensa que eles já carregam há anos. Mas obrigada por deixar sua opinião =)

  5. Marco Antonio (Marcoaa_m) on quinta-feira 21, 2010

    Esse tipo de profissional poderia se enquadrar no termo ” jornalista-Abutre” pois tira proveito da desgraça alheia…

    Aí entraria a questão da humanidade. Talvez se doassem alguma coisa para estas pessoas, pudessem amenizar o sofrimento de algumas.

    Quem ama seu semelhante, cuida… Não expõe o sofrimento alheio! Isto é uma coisa íntima e intimidade não se expõe ao público.

  6. Marco Antonio (Marcoaa_m) on quinta-feira 21, 2010

    Não é necessário “Outdoor do sofrimento”, para ajudar ninguém!

    Se voce sabe guarde para si e aja, em primeiro lugar. Para divulgar um problema, nem sempre são necessárias fotos!

    Às vezes o discernimento nos manda até omiti-las.

    Quer ajudar? Aja!

    Poderia ser voce sofrendo alí… Quem gostaria da exposição de uma foto do próprio sofrimento?

  7. Marco Antonio on quinta-feira 21, 2010

    Escrevi um Post também sobre o assunto, inspirado pelo seu!

  8. Ana Carolina on quinta-feira 21, 2010

    Bom gente, acho que se perguntassem aos haitianos o que eles acham sobre as fotografias publicadas nos sites e nos jornais impressos, eles ririam.Pois eles devem ter tantas coisas para pensarem que isso deve ser o que menos os incomodam. Além do mais esse “infelizmente” é o único jeito do mundo saber quais são as reais necessidades desse povo tão sofrido.
    Acho que o sensacionalismo está no modo como vemos e interpretamos os fatos…

    bjOO Ari….