Como eu expliquei no menu “Sobre o blog”, postarei neste diário também as matérias que escrevi e que mais gostei. Hoje trago para vocês uma das minhas reportagens preferidas, sobre as pessoas que voltam a estudar depois de muito tempo fora da sala de aula. Ela foi feita em Lavrinhas, no Vale do Paraíba (SP), no ano passado.
Confira e deixe a sua opinião:
“Vencendo o medo de recomeçar depois dos 40”
Após décadas longe da escola, moradores de Lavrinhas retornam as salas de aula para recuperar o sonho que ficou esquecido no passado
Por Ariane Fonseca
De bicicleta, Dona Isabel da Silva, cabeleireira há 20 anos, dispara ladeira abaixo para não chegar atrasada na aula. Ela tem 42 anos e acabou de sair de casa, onde arrumou correndo o jantar para o seu marido e seus três filhos. Mesmo com a rotina pesada, na qual concilia trabalho, casa e família; “Isa”, como gosta de ser chamada, ainda procura tempo para estudar. Hoje na 4ª série, ela conta com orgulho que superou o medo de recomeçar para lutar pelo seu sonho. “Eu tentei resistir por causa da idade, mas a vontade de ser uma grande empresária falou mais alto”, acentua a estudante; que mora em Lavrinhas, cidade do interior de São Paulo com pouco mais de sete mil habitantes.
Além de Isa, mais 200 moradores, com média de idade entre 40 e 60 anos, participam durante duas horas e meia por dia do programa “Educação para Jovens e Adultos” (EJA), criado pelo governo do Estado para diminuir o índice de analfabetismo no país. Orientados por professores capacitados em cinco escolas municipais, os participantes não aprendem somente a ler e a escrever; mas também a lutar pelos seus direitos e deveres, cuidar do meio ambiente e adquirir senso crítico. “Buscamos formar estas pessoas em todas as áreas, já aproveitando a experiência de vida que elas têm”, destaca a coordenadora do projeto na cidade, Silmara Giuponni.
Com um investimento de aproximadamente R$ 5 mil ao mês, os alunos vêem no projeto uma forma de retomar o sonho que um dia ficou esquecido no passado. O senhor Roque da Silva, de 54 anos, quem o diga. Na 2ª série, ele faz questão de ressaltar que é um dos alunos mais dedicados da pequena sala de aula da Escola Júlio Fortes, que fica no bairro Jardim Mavisou. “A professora sempre diz que eu sou inteligente”, afirma, lembrando que voltou a estudar somente para realizar o seu grande desejo: aprender a escrever o seu nome. “Parece simples, mas isso é muito importante para mim”, conta os olhos cheios de lágrimas.
Assim como a maioria de seus colegas, Silva teve que abandonar os estudos muito cedo para ajudar os pais nas despesas de casa. A professora dele, Adriane de Paula, explica que o desejo de mudar de vida é o maior objetivo de seus alunos. “Muitos destes estudantes sofreram e tiveram uma vida de miséria, mas estão aqui para almejar algo melhor para eles e seus filhos”. Um estudo da secretaria de Educação da cidade mostra que a média salarial dos alunos não ultrapassa dois salários mínimos e que 70% deles são mulheres que possuem dois filhos ou mais.
Em relação às aulas, Adriane conta que precisa sempre renovar a sua criatividade e paciência para que consiga transmitir o conteúdo necessário. Além de utilizar os livros didáticos do EJA, ela ainda recorre a jogos, palavras cruzadas, filmes e até da música para ensinar “seus baixinhos”, apelido carinhoso que criou para se referir aos alunos. “Eles adoram bingo, então, uma vez por semana a aula de matemática, que é a principal dificuldade deles, é dada desta forma”, acrescenta a professora.
A secretária de Educação do município, Marisa Fernandes Pereira, acredita que muito ainda pode ser feito para erradicar de vez o analfabetismo na cidade, mas alega que Lavrinhas vem se destacando entre os municípios do Vale do Paraíba na luta a favor da educação para todos. O último censo, realizado em 2005, apontou uma taxa de analfabetismo de 10,2% entre pessoas de 15 anos ou mais na cidade. Para Marisa, este índice é bem menor hoje. “Tenho convicção de que este número diminuiu. Estamos investindo pesado na educação, o que antes não acontecia”.
O otimismo da secretária ganha força quando comparado ao índice nacional. No Brasil, o número de analfabetos começou a diminuir somente nos últimos 20 anos. O alto índice verificado no país compromete os objetivos educacionais definidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) fixados até 2015. Um deles é ampliar em 50% a taxa de alfabetização de adultos. Houve avanços, é verdade – entre 1996 e 2006 a taxa de analfabetismo caiu 29,1% –, mas eles têm ocorrido num ritmo considerado insuficiente para alcançar a meta desejada. Mesmo com a lentidão dos números, Lavrinhas não deixa de investir na educação e de acreditar que é possível trazer de volta aos moradores da pequena cidade, que ainda estão com os sonhos adormecidos em algum lugar do passado, o desejo de recomeçar.
No related posts.
Posts relacionados trazidos a você pelo Yet Another Related Posts Plugin.






Olá! Por que não deixar um comentário??